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Americana 24H

Violência doméstica se mantém como principal causa de feminicídio na área de Campinas

Agosto 10, 2025
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Violência doméstica permanece como principal causa de feminicídio na região de Campinas
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Conforme o Atlas da Violência 2025 (IPEA), aproxamadamente 65% das vítimas de violência são mulheres e, em 64,3% dos casos, a violência ocorre dentro de casa. Foto: Arquivo Agência Brasil

Sete mortes e 11 tentativas de femínicidio foram registradas na área de cobertura da TV TODODIA neste ano. Ao todo, foram 60 casos contabilizados no interior do estado em 2025. As informações são da Secretaria de estado de Segurança Pública (SSP).

Campinas tem mais casos

Campinas lidera com cinco ocorrências, sendo três consumadas e duas tentativas. Em Hortolândia, foram registrados três casos, um consumado e dois tentados. Limeira também contabilizou três vítimas, uma morta e duas sobreviventes. Paulínia e Piracicaba aparecem com dois casos cada – em ambas os municípios houve um feminicídio consumado e uma tentativa. Já em Sumaré, foram três registros: um consumado e dois tentados.

Histórico das vítimas

Em Campinas, as vítimas tinham entre 17 e 49 anos, todas em contextos de conflito interpessoal – relações afetivas com violência doméstica. Foram usados objetos cortantes, arma de fogo, e em todos os casos houve consumo de álcool através do autor.

Em Hortolândia, as vítimas tinham entre 21 e 54 anos e envolveram conflitos afetivos e familiares, com uso de objeto cortante, sufocação e um caso sem meio reconhecido. Em dois registros, houve uso de drogas através do autor.

No município de Limeira, vítimas de 24 a 31 anos sofreram agressões em conflitos afetivos, com uso de objeto cortante, força corporal e contundente; alguns autores ou vítimas consumiram álcool.

As informações são da Secretaria de Segurança Pública. Foto: Gráfico produzido através do ChatGPT

Em Paulínia, mulheres entre 17 e 34 anos sofreram agressões com objeto cortante, sem relatos de uso de álcool. Já em Piracicaba, vítimas de 20 e 26 anos sofreram agressões com objeto cortante ou força corporal, com relato de uso de drogas em um caso.

Em Sumaré, vítimas entre 31 e 47 anos foram agredidas com objeto cortante ou atingidas por veículo, com álcool envolvido em duas ocorrências.

Conforme o Atlas da Violência 2025 (IPEA), aproxamadamente 65% das vítimas de violência são mulheres e, em 64,3% dos casos, a violência ocorre dentro de casa.

Tipos de violência

A Lei Maria da Penha, sancionada em 2006, estima medidas de proteção à vítima, endurece a penalização e tipifica como crime cinco tipos de violência:

  • Violência física: qualquer ação que cause dano à integridade ou à saúde corporal da mulher.
  • Violência psicológica: comportamentos que causam dano emocional, baixa autoestima, controle ou degradação, como humilhação, manipulação, isolamento, perseguição, chantagem, violação da intimidade e limitação da liberdade, prejudicando a saúde mental e a autodeterminação.
  • Violência sexual: atos que obrigam a mulher a manter relações sexuais sem consentimento ou que geram constrangimento, incluindo estupro, imposição de gravidez ou aborto, ou forçá-la a presenciar/praticar atos sexuais contra sua vontade, causando traumas físicos e psicológicos.
  • Violência patrimonial: retenção, destruição ou subtração de bens, documentos, objetos pessoais, recursos econômicos ou instrumentos de trabalho da mulher, afetando sua autonomia financeira.
  • Violência moral: condutas como calúnia (atribuir crime falso), difamação (afetar a reputação) e injúria (xingar ou ofender a honra da mulher).
Joyce Élène de Taunay, presidente do Conselho Municipal dos Direitos da Mulher de Americana. Foto: Ana Machado/TV TODODIA

“Tem sido muito interessante, principalmente quando trabalhamos com jovens, porque muitos deles dizem: ‘Lá em casa está acontecendo isso’. Muitas vezes, eles levam essa conscientização para a mãe, falando: ‘Mãe, você sabia que empurrar pode se tornar algo muito grave? Não é normal uma pessoa fazer isso. O pai ou o namorado não pode fazer isso’”, relata Joyce Élène de Taunay, presidente do Conselho Municipal dos Direitos da Mulher de Americana.

Para a presidente, o trabalho de conscientização é fundamental, principalmente nos primeiros indicativos. “Não normalize um grito, não normalize um empurrão. Isso não é normal. E é essa conscientização que buscamos: uma sociedade sem violência. E essa consciência não é só para as mulheres, é para os homens também, que muitas vezes foram criados achando que aquilo era normal. Quando mostramos que não é, muitos dizem: ‘Nossa, eu não sabia que isso era errado”, afirma.

No acompanhamento psicológico, um dos desafios mais comuns é lidar com a negação da violência, comenta a coordenadora do Núcleo de Psicologia do Projeto Heroica e psicóloga Thais Seghese. “Muitas mulheres relatam episódios de agressão física ou psicológica, mas consideram aquilo ‘normal’ ou ‘parte do relacionamento’. Essa negação está ligada a uma construção social e histórica que idealiza o amor romântico e naturaliza a submissão feminina em sociedades patriarcais e machistas.”

Medidas protetivas

Quando a mulher sofre violência doméstica familiar, ela pode procurar a delegacia e pedir medida protetiva por intermédio da Delegacia da Mulher. O pedido é direcionado ao juiz, que tem até 48 horas para decidir sobre a concessão da medida cautelar.

Para Ana Carolina Mello Bacchi de Almeida, delegada titular da 1ª DDM Campinas, as medidas protetivas são eficazes. “A grande maioria das vítimas de feminicídio não havia registrado ocorrência nem tinha medida protetiva. A medida protetiva é uma cautelar prevista na Lei Maria da Penha, que a vítima pode solicitar.”

A lei estima como medidas protetivas o afastamento do agressor do lar, a proibição de contato, a transferência da vítima e seus dependentes para abrigo especializado ou a inclusão em programa oficial de proteção. Nos casos em que o risco à integridade física da vítima ou a efetividade da medida estiver comprometida, o agressor pode ser detido.

Dra Ana Carolina Mello Bacchi de Almeida, Delegada de Polícia Titular da 1ª DDM Campinas. Foto: Arquivo/TV TODODIA

“Muitas vezes, a violência cessa após a concessão da medida protetiva, quando o agressor toma conhecimento dela. Em vários casos, ele deixa de perseguir e contatar a vítima. Recebemos esse retorno de algumas vítimas.”

Na capital paulista, foi iniciado um projeto piloto de monitoramento por tornozeleira eletrônica para agressores com medida protetiva concedida. “É um projeto importante para fiscalizar o cumprimento das medidas. Quando o juiz entende que o agressor precisa da tornozeleira, ele é monitorado remotamente.”

A vítima faz o cadastramento em um App que permite o monitoramento através da Polícia Militar. “Existe um botão do pânico que a própria vítima pode acionar caso o agressor se aproxime.” O sistema também controla remotamente a tornozeleira: se o agressor entrar em uma zona proibida perto da vítima, o Copom recebe aviso e uma viatura é deslocada até o local, preservando fiscalização continuado.

Em Campinas, funciona o programa Guarda-Amigo da Mulher, que também fiscaliza o cumprimento das medidas protetivas por intermédio da Guarda Municipal. “Quando a medida protetiva é concedida, informamos o programa, que entra em contato com a mulher para que ela possa se inscrever.” O programa também conta com botão do pânico no App para as mulheres cadastradas.

Saúde

Quando uma mulher busca atendimento depois de sofrer violência, o acolhimento depende do local onde ela procura ajuda. “Ela pode procurar uma unidade básica de saúde, hospital, UPA ou delegacia. Dependendo do serviço, ela é encaminhada para a rede adequada”, comenta Léa de Fátima Amábile de Queiroz Telles, vice-presidente do Conselho Municipal dos Direitos da Mulher de Americana e representante da Secretaria de Saúde.

Ela explica que, ao chegar a um serviço de saúde, a mulher pode ser orientada para órgãos como CREAS, CRAS, Delegacia da Mulher ou conselhos municipais. “Mas a decisão de buscar esses serviços é dela, principalmente quando são mulheres maiores de idade.”

Léa de Fátima Amábile de Queiroz Telles, vice-presidente do Conselho Municipal dos Direitos da Mulher de Americana e representante da Secretaria de Saúde. Foto: Ana Machado/TV TODODIA

O atendimento a crianças, adolescentes e idosos continua protocolos específicos, com encaminhamento obrigatório para serviços de saúde e assistência, conforme previsto em lei. “Esses grupos possuem legislação própria que garante sua proteção e encaminhamento adequado”, acrescenta a vice-presidente.

Sobre a necessidade do acompanhamento médico depois de trauma, Léa reforça: “Não se trata apenas de cuidar das feridas físicas, mas também do impacto social, familiar e psicológico causado pela violência.” Ela destaca a integração das políticas públicas de saúde, assistência social e segurança. “Nossa rede trabalha articulada para oferecer acolhimento, suporte social e investigação policial.”

“Estamos constantemente levando material informativo para unidades de saúde e espaços públicos para que as mulheres saibam onde buscar ajuda. Muitas vezes, a mulher não identifica que está vivendo uma situação de violência, mas ter acesso a essa informação pode fazer toda a diferença”, comenta a vice-presidente.

Violentômetro

O ‘Violentômetro’ apresenta uma escala que vai das violências mais sutis até as mais graves, permitindo que garotas e mulheres identifiquem situações abusivas e tomem medidas de proteção. A escala inclui violência verbal e emocional (piadas ofensivas, ciúme excessivo, controle, humilhações); violência psicológica e patrimonial (manipulação, ameaças, destruição de objetos, retenção de documentos); violência física e sexual (agressões, estupro, coerção sexual); e feminicídio (o ponto mais extremo e irreversível da violência).

A delegada reforça que familiares e amigos precisam reconhecer quando a mulher fica em uma relação de violência doméstica, pois, geralmente, ela não procura a polícia de imediato. “Essas pessoas também devem acolher a mulher, ouvir o que ela tem a dizer e não julgá-la. Muitas vezes, acabam dizendo que ‘ele é um bom pai, um bom marido’ ou que ‘vocês têm filhos’. Por isso, é importante deixar a mulher se abrir e conversar, para que ela se sinta tranquila para pedir ajuda, tanto dos familiares quanto da polícia, em momenterior.”

Apresenta uma escala que vai das violências mais sutis até as mais graves. Foto: Difusão/TCESP

Joyce Élène de Taunay comenta: “Como sociedade, temos o hábito de normalizar certas situações. Ele chutou a porta, vamos falar assim. Mas, se você prestar atenção, ele sempre chuta a porta. Dá um murro na parede, segura seu braço com mais força. A gente percebe que essa violência vai escalando, começando normalmente com um pequeno xingamento, como ‘Ah, eu não gostei desse brinco’, e depois vai aumentando.”

A psicóloga Thais Seghese reforça que muitas mulheres chegam ao projeto Heroica acreditando que “ele é meu príncipe encantado, ele brigava comigo, mas depois no outro dia me trazia rosas”. Essa idealização cria um ciclo onde a violência se repete, dificultando a saída do relacionamento abusivo.

Ela destaca que o trabalho não é “tirar essa mulher da relação, porque isso a gente não tem poder nem controle, mas oferecer informações para que ela saiba o que está vivendo e conheça outros caminhos, formas de vida mais saudáveis e seguras”.

Projeto Heroica

O Projeto Heroica surgiu em 2014, idealizado inicialmente como um espaço de aconselhamento jurídico para mulheres em situação de vulnerabilidade e violência doméstica. Com o tempo, se estruturou em três eixos principais: direito, psicologia e empreendedorismo e trabalho, disponibilizando atendimento integrado para apoiar a mulher em diversas dimensões.

Coordenadora do Núcleo de Psicologia do Projeto Heroica e psicóloga Thais Seghese. Foto: Aquivo/TV TODODIA

O núcleo de psicologia, consolidado com início de 2016, promove ciclos gratuitos de atendimento, com duração aproximada de um semestre, destinados prioritariamente a mulheres sem condições financeiras para custear as sessões. Esse atendimento sem custo é fundamental para defender acesso à saúde mental e acolhimento psicológico para quem mais precisa, promovendo autonomia, fortalecimento emocional e possibilidades reais de superação da violência.

Precisa de ajuda?

Mulheres que estejam sofrendo violência podem acionar imediatamente o 190, número da Polícia Militar, em casos de agressão em andamento ou risco iminente, preservando ajuda rápida. Já o 180, Central de Atendimento à Mulher, funciona 24 horas, de forma gratuita e sigilosa, disponibilizando direção sobre direitos, acolhimento e encaminhamento para a rede de proteção. Ambos os canais são importantes para interromper a violência e defender a segurança da vítima.

O registro da ocorrência pode ser feito por terceiros, por vários canais da Polícia Civil de São Paulo: de forma presencial, por disque-denúncia anônimo ou através da delegacia eletrônica, opção ampliada na pandemia para pedidos remotos, incluindo medidas protetivas.

Ferramenta do Governo de SP facilita registro de ocorrências de violência doméstica. Foto: Governo de SP

A delegada destaca a necessidade do comportamento ativo da vítima depois de o registro, incluindo fazer o exame de corpo de crime e apresentar provas como mensagens, vídeos e testemunhas que comprovem o ocorrido.

“Tudo isso é importante para a Polícia Civil, porque, num primeiro momento, acolhemos a vítima e pedimos a medida protetiva, mas depois investigamos o crime. Precisamos de provas concretas para confirmar o que aconteceu.”

Recado para as mulheres

“Não normalize. A partir do primeiro empurrão, não aceite. Tudo começa com um empurrão, um beliscão. Na primeira vez que sofrer qualquer tipo de violência, não se cale. Procure sempre sua rede de apoio — amiga, irmã, mãe, colega de trabalho. Não tenha vergonha. Muitas mulheres passam pelo mesmo que você. Não se cale”, orienta Joyce Élène de Taunay.

“Cada mulher sabe o que está passando e o que pode fazer naquele momento. Denunciar é importante, mas às vezes pode aumentar o risco. Por isso, o fundamental é buscar a rede de apoio — seja na saúde, assistência ou segurança — e saber que há ajuda disponível quando ela estiver pronta para buscar”, acrescenta a representante da Secretaria de Saúde.

“Não é necessário enfrentar a violência sozinha. Compartilhar o sofrimento traz alívio, por isso a psicologia faz tão bem. O primeiro passo é não se culpar. Aconteceu, vamos olhar para isso com carinho e sinceridade para que você entenda que não precisa ficar lá. Você pode sair, mas tem que ser uma escolha sua, não por obrigação ou incapacidade. Somos muito mais fortes do que parece”, afirma Thais Seghese.

Violência doméstica se mantém como principal causa de feminicídio na área de Campinas

Fonte: TodoDia

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