O cinema brasileiro vive um dos seus momentos mais importantes quando se trata de qualidade cinematográfica, premiações e reconhecimento nacional e internacional.
Em 2025, o longa-metragem Ainda Estou Aqui, dirigido por Walter Salles, inspirado no livro homônimo de Marcelo Rubens Paiva, fez história ao trazer a estatueta do Oscar de Melhor Filme Internacional, feito inédito para o cinema nacional.
Neste ano, voltamos à maior premiação da indústria do cinema com o filme O Agente Secreto, dirigido através do pernambucano Kléber Mendonça Filho e protagonizado através do baiano Wagner Moura.
A 98ª cerimônia do Oscar será realizada no domingo, 15 de março, e o filme de Kléber Mendonça Filho concorre em quatro categorias: Melhor Filme, Melhor Filme Internacional, Melhor Seleção de Elenco e Melhor Ator.
Sucesso
O Agente Secreto é sucesso de público e crítica. O filme venceu o Globo de Ouro nas categorias de Melhor Filme em Língua Não Inglesa e Melhor Ator em Filme de Drama, para Wagner Moura. Moura também levou a Palma de Ouro no Festival de Cannes, em 2025.
Para falar sobre os bastidores e a produção do longa, que continua em cartaz no Tivoli Shopping, em Santa Bárbara d’Oeste, a TV TODODIA dialogou com o editor do filme, Matheus Farias, em uma entrevista exclusiva.
Bastidores da montagem
Matheus Farias conta que teve o primeiro contato com o roteiro de O Agente Secreto aproxamadamente seis meses antes do começo das filmagens, quando ainda não sabia que participaria da montagem do filme. Segundo ele, o diretor Kleber Mendonça Filho costuma compartilhar seus roteiros com amigos próximos para ouvir impressões.
Durante as filmagens, Matheus registrava um documentário sobre os bastidores do próprio longa. Depois de aproxamadamente dez semanas de gravações, já na última semana de set, Kleber o convocou para integrar a equipe de montagem ao lado de Eduardo Serrano. Para Matheus, trabalhar com dois montadores simultaneamente foi uma experiência inédita em sua carreira.
Ele explica que a montagem do filme seguiu, em grande parte, a ordem cronológica do roteiro. Diferentemente de outros trabalhos de Kleber, que passaram por transformações mais profundas na edição, O Agente Secreto permaneceu muito fiel ao texto original. “Pouquíssimas cenas ficaram de fora do corte final. Isso também se deve ao fato de o diretor acompanhar de perto o processo de montagem”, explica Matheus.
O editor diz ainda que Kleber tem grande domínio da linguagem cinematográfica, particularmente de fotografia e montagem, e costuma fazer parte de forma ativa da edição. Além do que, a equipe já tinha uma relação de longa data: Matheus havia montado Retratos Fantasmas, enquanto Eduardo Serrano trabalhou anteriormente em Bacurau e Aquarius. Essa familiaridade facilitou lidar com o grande volume de material e com a complexidade narrativa do filme, que reúne muitos personagens e situações.
Ritmo e construção narrativa
A montagem buscou compreender o ritmo que a própria história exigia e definir como o olhar do público seria conduzido entre os vários personagens. Embora Wagner Moura seja o personagem principal e funcione como eixo da narrativa, o filme apresenta um elenco amplo e diverso.
Para Matheus, um dos desafios foi “equilibrar essas presenças para que todos os personagens tivessem relevância na trama”. O trabalho de montagem durou aproxamadamente oito meses de trabalho intenso, com dois montadores atuando todos os dias. O tamanho do projeto já era perceptível desde o roteiro, que tinha aproxamadamente 160 páginas.
Matheus afirma que a montagem também teve importante papel para transportar o espectador ao Recife da década de 1970. Ele observa que o filme não se limita a contar uma história com começo, meio e final, mas funciona como um tipo de coleção de memórias de alguém que viveu aquele momento.
A direção procura transmitir sensações da época por intermédio da imagem e da ambientação: textura, cores, calor, sons e ritmos da cidade. Como a narrativa se desloca entre diferentes momentos, incluindo flashbacks, a montagem precisou organizar essas camadas temporais de forma clara para o público, ao mesmo tempo em que mantinha o fluxo da narrativa.
Trabalhar a memória
De acordo com o montador, trabalhar em um filme que nasce de uma experiência tão pessoal do diretor também significa lidar com a memória de uma cidade e de uma geração. Kleber Mendonça Filho tinha nove anos em 1977 e cresceu em um ambiente profundamente ligado à história, já que sua mãe era historiadora. Por isso, a montagem precisou abraçar essas referências e transformá-las em ritmo cinematográfico. Matheus define o filme como “uma espécie de crônica sobre Recife e sobre uma época específica do Brasil”.
O profissional comenta que a narrativa reúne diversas histórias e referências culturais. Um exemplo é o episódio da “perna cabeluda”, uma lenda urbana popular em Pernambuco que aparece no filme. Para ele, esse tipo de elemento ajuda a construir o clima do momento e a falar indiretamente sobre a violência e o ambiente de medo durante a ditadura militar.
O mesmo ocorre com as referências aos carnavais violentos da época, frequentemente noticiados nos jornais. Assim, mesmo abordando temas duros, como repressão e perseguição política, o filme também incorpora elementos de vida cotidiana, festa, desejo e cultura popular.
O papel da montagem no cinema
Ao falar sobre o trabalho do montador no cinema, Matheus resume a função como “a última escrita do roteiro”. Depois de meses ou anos de elaboração do texto e das filmagens, o material chega à montagem fragmentado em incontáveis partes.
Cabe ao montador organizar essas peças, definir a sequência dos acontecimentos e decidir o que se mantém ou não no corte final. Além do que, a montagem é responsável por determinar o ritmo, a energia e a progressão dramática do filme, mantendo o interesse do público no decorrer de toda a duração — que, no caso de O Agente Secreto, ultrapassa duas horas e quarenta minutos.
Repercussão internacional
O montador também comentou a repercussão internacional do longa e as expectativas em relação ao Oscar. Para ele, o fato de o filme ter recebido indicações e previsão mundial já representa uma conquista significativa para o cinema brasileiro.
Matheus destaca que resultados como esse não acontecem por acaso, mas são fruto de políticas culturais que permitem o financiamento e a produção de filmes em diferentes regiões do país. Ele também lembra a força histórica do cinema pernambucano, que existe décadas forma realizadores importantes e contribui para a presença do Brasil em festivais internacionais.
Embora O Agente Secreto não tenha sido indicado na categoria de montagem, Matheus afirma que a equipe participou de várias encontros com votantes e associações profissionais nos Estados Unidos para apresentar o trabalho do filme. Ele observa que as categorias técnicas do Oscar costumam ser dominadas por profissionais ligados às associações norte-americanas, o que torna a disputa ainda mais difícil para produções internacionais.
Trajetória e influências
Além do trabalho como montador, Matheus Farias também age como diretor. Recentemente, concluiu seu primeiro longa-metragem em cooperação com Enoque Carvalho, com quem já realizou quatro curtas. O filme deve começar sua trajetória em festivais no decorrer de 2026. Ao falar de influências, ele afirma que consome cinema continuadamente e que suas referências vêm de vários lugares. Ainda assim, destaca a necessidade de Kleber Mendonça Filho em sua formação.
Antes de se tornar cineasta, Kleber atuou como crítico e programador do Cinema da Fundação, em Recife, espaço que amparou a formar uma geração de cinéfilos e realizadores. Para Matheus, essa convivência e esse ambiente de formação tiveram papel decisivo em sua trajetória artística.
Editor de ‘O Agente Secreto’ mostra à TV TODODIA bastidores da montagem do filme indicado a quatro Oscars
Fonte: TodoDia
