A área registrou 92 mortes por suicídio entre janeiro e maio de 2026, segundo dados do Ministério da Saúde. Campinas concentra o maior número de ocorrências, com 38 registros, seguida por Americana, com 11, e Sumaré, com dez.
Os números chamam atenção para um problema que muitas vezes se mantém oculto para quem fica por perto. Durante o Setembro Amarelo, campanha de conscientização e prevenção do suicídio, o debate sobre sofrimento emocional, acolhimento e acesso à ajuda ganha espaço.
Na sequência do levantamento aparecem Piracicaba, com nove mortes; Santa Bárbara d’Oeste, com oito; e Limeira, com sete. Hortolândia registrou cinco casos, enquanto Cosmópolis e Paulínia tiveram dois cada. Nova Odessa não teve ocorrência notificada no momento.
Sofrimento pode permanecer silencioso
Por trás das estatísticas estão pessoas e famílias afetadas através do luto. Para a psicóloga Anna Julia, a falta de pertencimento e de propósito pode ser parte da experiência de quem enfrenta um sofrimento intenso. “Eu vejo que é uma falta de pertencimento mesmo. Muitas vezes falta de sentimento de utilidade, de que você tem um propósito, um sentido de vida mesmo. De que você é importante ali, de que você é visto, de que você é valorizado.”
De acordo com a profissional, a pessoa pode chegar a um nível de sofrimento em que deixa de enxergar alternativas para lidar com o que fica vivendo. O levantamento também mostra concentração de ocorrências entre pessoas de 30 a 49 anos, faixa que reúne 45 dos 92 registros, quase metade do total.
Para Anna Julia, esse momento da vida pode ser agendado através da combinação de responsabilidades profissionais e familiares. “É uma faixa em que as pessoas acabam se atrelando muito ao trabalho mesmo, à produtividade. É uma faixa em que muitos estão tendo filhos também, cuidando de filhos, da família. E eu sinto que é uma sobrecarga, um peso muito grande para eles estarem à frente dessas famílias.”
A psicóloga destaca ainda que a falta de tempo para olhar para si e cuidar da própria saúde emocional pode contribuir para que indicadores de sofrimento sejam ignorados.
Mudanças de comportamento poderão ser indicadores
O sofrimento intenso nem sempre aparece de forma evidente. Mudanças bruscas de comportamento, isolamento e perda de interesse por atividades que antes faziam parte da rotina podem indicar que algo não vai bem.
Também é importante observar alterações na maneira como a pessoa se relaciona com os outros. Anna Julia explica: “A gente consegue perceber alguns padrões de comportamentos. Aquela pessoa costuma falar mais, costuma ser mais radiante, contar do dia dela, perguntar como estão as coisas, costuma ser mais extrovertida, e aí começa a se isolar, começa a estar mais irritada e não ter muita paciência com as coisas.”
Falas indiretas sobre querer fugir, sumir ou ir embora também merecem atenção. Nesses momentos, segundo a psicóloga, ouvir com disponibilidade pode ser um jeito de acolhimento.
Escutar também é um jeito de cuidar
O tema do Setembro Amarelo 2026 do CVV (Centro de Valorização da Vida) é “Escutar é estar presente”. A campanha reforça a necessidade de ouvir com atenção, sem julgamentos e sem tentar oferecer respostas prontas.
A psicóloga aconselha perguntar diretamente como a pessoa fica e de que maneira é viável auxiliar. “É sempre bom perguntar: como que eu posso te ajudar? Como que você está se sentindo? Me fala de como está aí, deixa eu adentrar o seu mundo também, conhecer a sua realidade.”
Para quem fica próximo de alguém em sofrimento, a direção é acolher e, quando necessário, auxiliar na busca por atendimento profissional. Também é importante reconhecer os próprios limites e não assumir sozinho a responsabilidade através do cuidado.
Buscar ajuda não significa fraqueza
A resistência em procurar atendimento psicológico ainda pode estar ligada ao preconceito. Algumas pessoas associam a terapia à fraqueza ou a transtornos mentais graves e temem ser julgadas ou rotuladas.
Para Anna Julia, apesar disso, a terapia pode ser procurada antes que o sofrimento alcance um estágio grave. “É um espaço mesmo de saúde, de acolhimento, não é um espaço de apontar o dedo e falar: ‘você é culpado das coisas que você está fazendo’.”
A profissional também destaca que a terapia pode contribuir para o autoconhecimento, a autoestima, os relacionamentos e a compreensão de situações que provocam sofrimento.
Onde procurar ajuda
Quem passa por um momento de sofrimento emocional pode procurar uma unidade de saúde ou um serviço especializado. O SUS (Sistema Único de Saúde) concede atendimento em saúde mental, com encaminhamento definido conforme a avaliação de cada caso.
Em situações de sofrimento intenso, também é viável buscar o atendimento do CVV através do 188, gratuitamente e 24 horas diariamente. O serviço concede escuta sigilosa e acolhedora por telefone, além de canais digitais.
Em caso de emergência ou risco imediato, a direção é procurar um serviço de urgência ou acionar o atendimento de emergência.
A mensagem do Setembro Amarelo é que ninguém precisa confrontar o sofrimento sozinho. Escutar, acolher e auxiliar na busca por atendimento poderão ser passos importantes para quem necessita de apoio.
Escuta e acolhimento ajudam a reconhecer indicadores de sofrimento emocional
Fonte: TodoDia

